Deitado no sofá, ele solta uma baforada. A sala quase às escuras. A luz de um monitor é a única coisa que o impede de ficar cego. “Velhos hábitos” ele pensa olhando o computador ligado. Agora que o mundo havia acabado, nada daquilo fazia muito sentido. “Quase duas semanas atrás”. De lá para cá, ele havia vagado como um fantasma saído de um limbo esquecido qualquer. Nâo sentia cheiro, não via cor, não via rostos. Tudo era meio vago e translúcido, como uma quimera, um devaneio qualquer da mente de um louco largado num canto sujo e esquecido do manicômio. Ele, que já vivera muitas vidas, já presenciara O Fim mais vezes do que merecia, sabia que era temporário. Mas a dor da morte, a dor lancinante da morte e a agonia de permanecer vivo após ela eram algo a que ele nunca iria se acostumar. Ao contrário, cada vez que era atirado, à revelia, ao esquecimento, a dor parecia voltar mais revigorada, mais viva, mais pulsante. Uma dor viva que se alimentava da carne e da mente fraca dos espectros que são condenados a errar pelo limbo, que são condenados a ver, mas que caem no oblívio e não são vistos, sentidos, lembrados ou tocados. Por vezes, nesta última semana e meia, algumas pessoas, notadamente as fêmeas, o haviam visto, através de um umbral qualquer, uma fresta, um rasgo entre os dois mundos. Todos os dias esse véu se rasgava um pouco. No vinho sábado à noite, andando a esmo pelas ruas, todos os dias à tarde. Elas o olharam com interesse, um interesse de fêmea olhando um macho. Animal. Ele as olhava de volta e as via ora como uma multidão de corpos sem rostos, sem vida, sem calor ora com um único rosto, uma única vida, um único calor, que não lhe pertenciam mais, que havia ficado viva, que havia, como os outros, o esquecido e seu cérebro apagado dos registros, para quem ele não era sequer uma lembrança ruim que surgia de vez em quando. Era nada. Oblivio. Ele sabia que era uma questão de tempo para notá-las de volta e que este tempo estava chegando. E também temia o que viria. Ele voltaria, mais uma vez, à sua detestável vida de beber, foder e esquecer. Detestável. Primeiro por desespero, depois por um prazer patético e pueril e, finalemente, por inércia. Voltava porque tinha de voltar. Um homem que já viveu muitas vidas, cansa de brigar com o Destino e simplesmente se deixar levar, porque sabe que o fim é o mesmo. E sempre, quando o fim se aproximar, mais uma vez, ele abandonará essa vida detestável e viverá a plenitude que o satisfaz, com o sentimento transbordante que eleva o seu ser às mais altas esferas da felicidade e será completo, terno, será um Homem inteiro mais uma vez. Um pequeno instante, breve e infinitesimal. E então, quando houver esquecido da morte, da vida detestável, do limbo do desespero, quando a dor for apenas uma lembrança vaga nas mais fundas entranhas do seu ser, então a Vida o olhará um pouco mais detidamente e pensará, com um certo desprezo e um grande nojo, quanto viver foi desperdiçado com aquele homem marcado pelo fado, vaticinado pelos deuses e irá, mais uma vez, virar-lhe as costas e desaparecer, deixando-lhe morto e esquecido. E o Mundo acabará outra vez.