Um metro e cinquenta e quatro centímetros

Posted in texto on Julho 7th, 2008 by Rodrigo Zeba

Ele estava deitado confortavelmente. Um pouco acima, cerca de um metro e cinquenta e quatro centímetros, através de uma abertura retângular ele apreciava a vista. Era a noite mais linda que jamais havia visto. A lua cheia, enorme, branca o saudava derramando sua luz pálida e tenra sobre seu rosto. As poucas estrelas que conseguiam ultrapassar o brilho majestoso da lua, reluziam em regozijo perante a Criação. Eventualmente, uma estrela explodia ao longe e caia deixando um rastro translúcido e efêmero, e ele sorria ao fazer sempre o mesmo desejo. Realmente, era uma bela noite. Ele via e percebia toda a extensão do cosmo e se sentia enorme, maior do que tudo aquilo. A alegria imensa que lhe invadia o coração era indescritível. Era a vida que finalmente o encontrava e o transformava num ser pleno, perfeito, completo. Pela primeira vez em sua vida sem graça, era o espírito em júbilo, era o fim da dor e da espera. Era se sentir, finalemente, a imagem e semelhança. Uma silhueta se desenhou na abertura retangular. A luz da lua revelou-lhe o rosto branco e luminoso. A noite se tornou infinitamente mais bela e ele quase precisou fechar os olhos dante daquela perfeição quase insuportável para um mortal. Era o ápice da sua existência. Sorriram um para o outro. O fim da espera. A dor ceifada e destruída em sua criação por aquela pequena criatura, linda, branca e luminosa como a lua. E ela, a lua, escondeu-se sob uma núvem como que humilhada por tamanha beleza. E a noite tornou-se mais clara. Ela estava lá. Seu espírito vibrou de emoção e ela, sentindo a vibração e a cândura, jogou-lhe a primeira pá de terra no rosto, sorrindo de felicidade. Ele aspirou a terra por instinto e sentiu seus grãos grosseiros e pestilentos seguirem seu caminho até os pulmões. Tossiu e sentiu o ardor no seu esôfago, suas narinas entupidas de areia e sua boca, institivamente, abriu-se buscando mais ar. A medida que a cova ia sendo preenchida, ficava mais difícil respirar. A terra invadia seu corpo e o fazia vomitar a cada instante. Seus pulmões magoados com os grãos sangravam internamente e boca aberta encontrava mais detritos do que ar. O peito ardia e sua respiração tornou-se curta, entrcortada. A tontura era insuportável. Mas seus olhos estavam descobertos. E ela a via. Nada daquilo importava, apenas aquela visão magnífica. Ela soltou-lhe um beijo e continuou seu trabalho, lentamente. Ele agora sentia o gosto do sangue na boca, misturado ao gofo e o calor da hemorragia nasal. A terra cobria-lhe quase todo o rosto e respirar tornou-se uma tarefa hercúlea. Ela olhou-lhe uma última vez, com uma ternura indizível nos olhos, sabendo que seu trabalho estava chegando ao fim e o trabalho tinha que ser feito. Atirou-lhe a pá que cobriu seu rosto. Na sua escuridão, ele encontrou a felicidade. Suas vias aéreas encheram-se de areia, seu corpo paralisado pelo peso o impedia de se debater um busca de ar e seu espírito alcançando os mais altos degraus da plenitude, festejou o amor alcançado. Ao alvorecer, ela terminou seu trabalho. Soltou um beijo carinhoso em direção à cova, colocou a lápide onde deveria e escreveu, num misto de cândura e satisfação pelo trabalho realizado: Um metro e cinquenta e quatro centímetros.

Vão

Posted in Nada on Abril 28th, 2008 by Rodrigo Zeba

“Vc é muito intenso para ser em vão”, ela disse. Mas eu estava tão leve… E foi em vão. E alguém por aí me acha em vão.

vão | adj. | s. m. | loc. adv.

fem. vã

Do Lat. vanu

  adj.

      fútil;
      infrutífero;
      baldado;
      ineficaz;
      oco;

s.m.

     vácuo;
     intervalo;
     espaço desocupado;

loc. adv

em -: debalde; inutilmente; em falso.

Ciclo

Posted in texto on Abril 22nd, 2008 by Rodrigo Zeba

Deitado no sofá, ele solta uma baforada. A sala quase às escuras. A luz de um monitor é a única coisa que o impede de ficar cego. “Velhos hábitos” ele pensa olhando o computador ligado. Agora que o mundo havia acabado, nada daquilo fazia muito sentido. “Quase duas semanas atrás”. De lá para cá, ele havia vagado como um fantasma saído de um limbo esquecido qualquer. Nâo sentia cheiro, não via cor, não via rostos. Tudo era meio vago e translúcido, como uma quimera, um devaneio qualquer da mente de um louco largado num canto sujo e esquecido do manicômio. Ele, que já vivera muitas vidas, já presenciara O Fim mais vezes do que merecia, sabia que era temporário. Mas a dor da morte, a dor lancinante da morte e a agonia de permanecer vivo após ela eram algo a que ele nunca iria se acostumar. Ao contrário, cada vez que era atirado, à revelia, ao esquecimento, a dor parecia voltar mais revigorada, mais viva, mais pulsante. Uma dor viva que se alimentava da carne e da mente fraca dos espectros que são condenados a errar pelo limbo, que são condenados a ver, mas que caem no oblívio e não são vistos, sentidos, lembrados ou tocados. Por vezes, nesta última semana e meia, algumas pessoas, notadamente as fêmeas, o haviam visto, através de um umbral qualquer, uma fresta, um rasgo entre os dois mundos. Todos os dias esse véu se rasgava um pouco. No vinho sábado à noite, andando a esmo pelas ruas, todos os dias à tarde. Elas o olharam com interesse, um interesse de fêmea olhando um macho. Animal. Ele as olhava de volta e as via ora como uma multidão de corpos sem rostos, sem vida, sem calor ora com um único rosto, uma única vida, um único calor, que não lhe pertenciam mais, que havia ficado viva, que havia, como os outros, o esquecido e seu cérebro apagado dos registros, para quem ele não era sequer uma lembrança ruim que surgia de vez em quando. Era nada. Oblivio. Ele sabia que era uma questão de tempo para notá-las de volta e que este tempo estava chegando. E também temia o que viria. Ele voltaria, mais uma vez, à sua detestável vida de beber, foder e esquecer. Detestável. Primeiro por desespero, depois por um prazer patético e pueril e, finalemente, por inércia. Voltava porque tinha de voltar. Um homem que já viveu muitas vidas, cansa de brigar com o Destino e simplesmente se deixar levar, porque sabe que o fim é o mesmo. E sempre, quando o fim se aproximar, mais uma vez, ele abandonará essa vida detestável e viverá a plenitude que o satisfaz, com o sentimento transbordante que eleva o seu ser às mais altas esferas da felicidade e será completo, terno, será um Homem inteiro mais uma vez. Um pequeno instante, breve e infinitesimal. E então, quando houver esquecido da morte, da vida detestável, do limbo do desespero, quando a dor for apenas uma lembrança vaga nas mais fundas entranhas do seu ser, então a Vida o olhará um pouco mais detidamente e pensará, com um certo desprezo e um grande nojo, quanto viver foi desperdiçado com aquele homem marcado pelo fado, vaticinado pelos deuses e irá, mais uma vez, virar-lhe as costas e desaparecer, deixando-lhe morto e esquecido. E o Mundo acabará outra vez.

Linda

Posted in texto on Abril 19th, 2008 by Rodrigo Zeba

Ele jogou o cigarro no chão e pisou com os pés descalços. Não sentiu a mágoa na sola do pé causada pela brasa. Encarou o cigarro, morto e retorcido, misturado com o barro azulado pela luz da lua. Uma brisa soprou, gélida, vinda do negrume que o cercava e o arrepio que ele sentiu o forçou a olhar para frente. Lá, uns dois metros acima, ela o encarava, com o sorriso mais quente e maravilhoso que alguém o dispensara. Ele nunca tinha sido uma pessoa para quem as pessoas sorriam, não um sorriso daqueles, encantador, sublime, convidativo. Um sorriso que o esquentava, confortava e brigava, vencedor, com a noite e o frio. Seus cabelos dourados balacavam ao vento e seus olhos castanhos brilhavam uma luz que clareava a sua alma. Linda. Ele a olhava com toda doçura havia em seu ser. Destruído em sua essência, desprovido da luz, jogado ao vazio solitário e esmagador dos esquecidos, não era muito mais do que um monte de sangue e merda envoltos numa carapuça frouxa e esverdeada. Não era nada. Mas aquilo persistia. Aquela doçura cândida, um calor infinito, um sentimento desmedido que surgia em algum canto esquecido da sua mente destruida e crescia, o invadia, e extrapolava os limites físicos da carne, expulsando os demônios que o seguiam há eras incontáveis. Ela estendeu-lhe a mão como num convite, Venha. Seus músculos, lenta e dolorosamente, responderam ao chamado. Subiu lentamente os degraus e ela lhe alcançou a mão, ajudando. Um frêmito percorreu seu corpo ao toque das mãos e ele sentiu uma alegria imensa, única, ilimitada vibrando em cada célula moribunda, frouxa e podre do seu ser. Ela respondeu com um sorriso e um delicado roçar de lábios. Ele esboçou um sorriso de volta e deu mais dois passos em direção ao lugar correto. Ela agradeceu com um aceno e, delicademente, com um amor quase infinito, mal tocando-lhe a pele, passou-lhe a corda pelo pescoço. Ele, em pé no cadafalso, alegre como nunca ousou pensar estar, levantou seu imundo braço para macular com um carinho aquela pele delicada. Seu gesto foi bruscamente interrompido pelo abrir do alçapão. Seu corpo se contorceu num espasmo, sua boca abriu buscando ar, sua lígua patéticamente projetada para fora e seus olhos a encararam, um olhar terno, doce, infinito. Ela devolveu-lhe o olhar e sorriu, uma última vez, o sorriso mais maravilhoso que alguém o dispensara. Linda como a Morte.

Dor

Posted in texto on Abril 10th, 2008 by Rodrigo Zeba

Dói… dói uma dor grande que é maior que os limites físicos do meu corpo… Dói uma dor que nenhuma lágrima expressa o tamanho, nenhum porre apaga da alma, nenhuma vida parece ser vida. Uma dor de frio, uma dor de desespero. Uma dor que me mata e alimenta minha vida, não vivo nem consigo morrer, e perãmbulo no mundo dos vivos sem vida alguma, apenas um negrume de desespero, um breu sem saída, uma destuição e renascimento constantes do meu ser. Uma dor de morte, uma dor que é maior do que todas as dores e entra pelos meus poros e me consome por dentro e destrói minha alma, estraçalha meus sentidos, sepulta minha luz. Negro como a morte.

Ela

Posted in texto on Abril 10th, 2008 by Rodrigo Zeba

As luzes estavam apagadas. Ao fundo, a tv emanava uma claridade azulada e tagarelava as besteiras de sempre. Ele não ouvia. Na janela, a samambaia cumpria seu papel de samambaia e balançava ao vento, sussurrando. O cão jazia na almofada e olhava para seu dono com uma certa melancolia. Ele acendeu um cigarro, deu um trago, sentido todas as 4700 substâncias tóxicas penetrarem sua corrente sanguínea o revigorarem e aquecerem um pouco. Estava frio, apesar dos termômetros marcarem 28 graus. No breu quase total da sua sala, a brasa do cigarro derramou uma luz avermelhada e sanguinolenta sobre sua mão. Ela, a mão, devolveu com um brilho metálico de prata vindo do dedo anular da mão direita. Ele olhou para o anel e para o cenário lúgubre ao redor. Olhou para o espaço vazio ao seu lado no sofá. Um sorriso triste se formou nos seus lábios ele deu um suspiro longo, apagou o cigarro e pegou outro na carteira. Ela surgiu na sua frente como um fantasma de outros tempos, cinzenta na meia luz azulada da televisão, lânguida, com um brilho triste nos olhos. Você não deveria estar aqui, disse ele, Por causa do anel?, Por causa do anel. Isso não é certo. Por que voltaste?, Nunca fui embora, ela respondeu, Sou sua e sempre estarei ao seu lado. Por um breve instante ele pensou em retrucar, mas percebeu que era inútil. Ela tinha razão. Ela era sua e nada mudaria esse fato, escrito há eras incontáveis nos livros do Destino. Ele a convidou para sentar. Ela sentou-se como que flutuando. Ele deu um trago no cigarro e sentiu as mãos gélidas dela lhe fazerem um delicado carinho. Soltou a fumaça e pensou na ironia da sua vida, onde tinha como única companhia a Solidão.

Citações - Filmes

Posted in Filosofia barata, citação on Março 12th, 2008 by Rodrigo Zeba

“Há um pintor italiano chamado Carlotti que definiu beleza… disse ser o somatório de todas as partes a trabalharem em conjunto de tal forma que nada necessite ser acrescentado, retirado ou alterado…e isso és tu, és linda.”
(“Next”)

Durante toda a nossa vida procuramos alguém a quem amar, alguém que nos complete. Escolhemos parceiros e mudamos de parceiros. Dançamos músicas de corações despedaçados e esperança, sempre a interrogarmo-nos se, em algum lugar, de alguma forma, span style=”font-size: 10pt; line-height: 150%; font-family: Verdana color:#ffffff”>alguém perfeito procura por nós.”
(“The Wonder Years”)

“Passas todo o tempo à procura do amor e ainda assim não sentes nada quando está mesmo à tua frente. Eu vou amar outra vez mas tu vais passar o resto da vida a saber que viraste as costas ao amor e isso faz de ti um hipócrita.”
(“Cruel Intentions”)

“Como é que nunca sabemos quando o amor começa mas sabemos sempre quando acaba?”
(“L.A Story”)